Compartilhe

A ABES promoveu, nesta segunda-feira (12/05), em São Paulo, a primeira edição do Café Tech, um espaço de debate e networking sobre temas relevantes para o setor de Tecnologia da Informação. Com o tema “A nova geopolítica e a estratégia brasileira para tecnologia da informação”, o evento teve como convidado especial o diretor e diplomata Eugenio Vargas Garcia, do Ministério das Relações Exteriores (MRE), para discutir a intrincada relação entre a nova geopolítica global e a estratégia brasileira para o setor de TI. A abertura do evento foi realizada por Ricardo Caldas, vice-presidente da ABES, como moderação de Marcelo de Almeida, Diretor de Relações Governamentais.

Em sua fala, Eugenio Vargas Garcia compartilhou com os presentes a sua experiência como ex-chefe do setor de Ciência, Tecnologia e Inovação do Consulado-Geral do Brasil em São Francisco, no coração do Vale do Silício. Ele destacou a efervescência do ecossistema de inovação local, com a presença de grandes empresas de tecnologia, startups dinâmicas, universidades de ponta, como Stanford e Berkeley, e a atuação primordial do capital de risco (venture capital).

O diplomata apresentou o conceito de “Tech Diplomacy”, a diplomacia de tecnologia, que ganhou força com a nomeação do primeiro embaixador de tecnologia pela Dinamarca em 2017, sediado justamente em São Francisco. Essa iniciativa pioneira visava estabelecer um canal de diálogo direto com as empresas de tecnologia, reconhecendo o papel fundamental do setor privado na área digital.

Foi nesse contexto que surgiu a iniciativa brasileira de evoluir da “Tech Diplomacy” para a “Diplomacia da Inovação”. Segundo o diretor do MRE, o objetivo é colocar o desenvolvimento econômico, social e tecnológico no centro da estratégia, utilizando a ampla rede de postos do Itamaraty no exterior, incluindo os 65 Setores de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTEX), para promover um Brasil inovador, atrair investimentos e internacionalizar startups brasileiras.

Em Brasília (DF), um dos primeiros desafios identificados por Eugenio Vargas Garcia foi a necessidade de coordenação interna dentro do próprio Ministério das Relações Exteriores e, posteriormente, com outros órgãos do governo federal, como o MDIC, a Fazenda, o MGI e o MCTI, além de agências reguladoras como a Anatel. Ele enfatizou a importância de uma visão unificada sobre o papel do digital na política externa brasileira e celebrou a reativação do Comitê Interministerial para Transformação Digital (CITDigital) como um passo fundamental para alinhar objetivos e trabalhos em conjunto em busca de resultados concretos para o país.

Politização da tecnologia

O diplomata abordou a conjuntura internacional, destacando a “politização da tecnologia” como um fenômeno central. Ele descreveu como temas tecnológicos passaram a ocupar o centro das discussões políticas, gerando tensões geopolíticas.

Garcia apontou três movimentos de pressão no cenário global: a desglobalização, com tendências de fechamento econômico e políticas protecionistas; a desdemocratização, com o surgimento de tendências iliberais e fraturas entre blocos de países; e a desmultilateralização, com o questionamento do papel de organizações como a ONU e o potencial enfraquecimento do multilateralismo.

Diante desse cenário complexo, Eugenio Vargas Garcia defendeu a necessidade de o Brasil adotar uma postura proativa, defendendo a globalização, a democracia e o multilateralismo. Ele mencionou iniciativas como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e a futura aquisição de um supercomputador como elementos importantes da estratégia nacional.

Outro conceito central abordado foi o de soberania digital competitiva e aberta. Garcia enfatizou que essa visão não implica em fechamento de mercado ou a autossuficiência tecnológica completa, mas sim no fortalecimento das capacidades nacionais através da cooperação internacional e da construção de parcerias estratégicas.

O diplomata também destacou a importância geopolítica de o Brasil ocupar as presidências do G20, em 2024, e do BRICS, em 2025, bem como na futura presidência do Mercosul, como oportunidades para liderar agendas e promover a perspectiva do desenvolvimento no cenário internacional. Ele ressaltou o potencial do país na interface entre descarbonização e digitalização, as chamadas “transições gêmeas”, e a importância da atuação sustentável do setor privado de tecnologia.

O Café Tech da ABES proporcionou um debate enriquecedor sobre os desafios e oportunidades para o Brasil no contexto da nova geopolítica tecnológica. A presença do Diretor Eugenio Vargas Garcia permitiu aos representantes do setor de TI brasileiro compreenderem melhor a estratégia do governo e a complexa dinâmica internacional que impacta diretamente o desenvolvimento do setor. O evento reforçou a importância da colaboração entre o governo, o setor privado, a academia e a sociedade civil para impulsionar a inovação e garantir a soberania digital do Brasil em um mundo cada vez mais conectado, tenso e competitivo.

acesso rápido