Da origem das cidades às agendas de inovação, a água permanece como eixo estruturante da vida urbana, revelando que não há inteligência nem resiliência sem gestão equitativa
*Por Marcelo Nery
Nenhuma cidade surge, se expande ou se consolida sem dispor de uma base hídrica capaz de assegurar a sobrevivência de sua população e a reprodução de suas dinâmicas urbanas. Mais do que um recurso destinado ao abastecimento humano, a água constitui elemento estruturante do espaço urbano e fundamento material da vida coletiva.
Historicamente, as cidades se estabeleceram junto aos rios. A proximidade da água viabilizou a produção econômica, o transporte e a integração territorial, ao mesmo tempo em que forneceu energia e sustentou a organização cotidiana da vida social. Com a consolidação das metrópoles modernas, essa centralidade não diminuiu; ao contrário, foi ampliada e reorganizada por meio de grandes obras e redes: a água passou a sustentar processos industriais, cadeias produtivas e estruturas cada vez mais complexas de infraestrutura urbana.
No século XX, a expansão das redes de abastecimento e esgotamento sanitário foi celebrada como conquista civilizatória e marco da modernidade. A universalização do saneamento converteu-se em indicador de saúde pública e progresso urbano. Contudo, esse indicador revela sua dimensão política; já que, longe de se restringir à provisão de um recurso essencial, a água tornou-se instrumento de gestão territorial e marcador persistente das desigualdades sociais.
A África do Sul oferece um exemplo emblemático. Durante o regime do apartheid, o abastecimento foi sistematicamente privilegiado nas áreas destinadas aos grupos social e politicamente dominantes, enquanto territórios ocupados por populações marginalizadas enfrentavam precariedade e escassez. Mesmo após o reconhecimento constitucional do direito à água, a herança espacial dessa ordenação desigual permanece visível. A crise hídrica de 2018, na Cidade do Cabo, evidenciou como, em contextos de escassez, hierarquias sociais preexistentes tendem a se aprofundar: bairros mais favorecidos mobilizam recursos privados de adaptação, enquanto parcelas mais vulneráveis da população permanecem dependentes de serviços públicos fragilizados — cenário previsível, embora profundamente lamentável.
Dinâmica semelhante pode ser observada na capital paulista. Como demonstrado em estudo sobre padrões urbano-demográficos, “mesmo com a quase universalização dos serviços de saneamento básico (…), as condições sanitárias da cidade de São Paulo ainda constituem um importante elemento de desigualdade intraurbana” (Nery et al., 2019, p. 30) . A ampla disseminação desses serviços, portanto, não elimina por si só as assimetrias inscritas no território; ao contrário, pode coexistir com processos históricos de diferenciação socioespacial, expressos nas condições de acesso e na qualidade de sua distribuição.
No estudo citado, o acesso à água potável — assim como à rede de esgotamento e à coleta de lixo — não aparece como o principal marcador das diferenças locais. Variáveis associadas à expansão urbana e às características socioeconômicas do responsável pelo domicílio, por exemplo, apresentam maior peso na distinção entre localidades. Ainda assim, esses três serviços urbanos essenciais integram a estrutura que diferencia territórios. Mesmo quando não figuram como os fatores mais evidentes, estruturam oportunidades, produzem vulnerabilidades e condicionam trajetórias de desenvolvimento.
A importância da água ultrapassa a dimensão estritamente sanitária. Ela integra um sistema socioambiental que articula “elementos geoecológicos à ordem social” (Idem, p. 13), sintetizando a forma como características ambientais — como áreas de risco geológico, mananciais e zonas periurbanas — se entrelaçam com processos de urbanização.
As áreas de proteção de mananciais exemplificam essa tensão. Parte significativa do território paulistano localiza-se em zonas estratégicas para o abastecimento. A expansão urbana sobre esses espaços evidencia o conflito entre o direito à moradia e a preservação ambiental, que, em determinadas situações, assume contornos ainda mais preocupantes pela atuação de organizações criminosas. Assim, a água emerge como desafio permanente para as políticas públicas e para a gestão do território.
Essa lógica também se manifesta na dinâmica de alertas da Defesa Civil. Enchentes e deslizamentos atingem de forma desproporcional áreas onde a infraestrutura é mais frágil e a ocupação urbana ocorreu à margem das diretrizes formais de planejamento. A vulnerabilidade, nesse caso, não decorre exclusivamente de fatores naturais, mas da articulação entre ambiente e sociedade.
A mudança climática intensifica esse cenário. Eventos extremos de escassez hídrica e de precipitação desafiam os sistemas de abastecimento e a gestão de riscos de desastres. Cidades dotadas de planejamento integrado e monitoramento constante tendem a enfrentar melhor as crises hídricas, enquanto aquelas marcadas por desigualdade e fragmentação territorial veem ampliadas suas vulnerabilidades. Nesse sentido, a governança da água converte-se em indicador privilegiado da resiliência urbana.
Esses desafios produzem impactos que ultrapassam a dimensão ambiental. Interrupções prolongadas comprometem cadeias produtivas e afetam a vitalidade econômica da cidade. Eventos pluviais de maior magnitude também reconfiguram a experiência urbana e alteram a relação dos cidadãos com o espaço que habitam. Em ambos os casos, a canalização de cursos d’água e a impermeabilização do solo têm buscado domesticar a natureza em nome do progresso urbano. Contudo, enchentes recorrentes lembram que a água não desaparece sob o concreto nem se submete integralmente ao planejamento urbano, impondo seus próprios limites.
O controle técnico sobre a água assume nova dimensão quando consideramos as cidades inteligentes. No campo hídrico, apresenta-se a promessa de eficiência por meio de sensores, monitoramento em tempo real e uso ampliado de inteligência artificial. Entretanto, a incorporação de tecnologia não garante, por si só, resiliência. Episódios recentes de enfrentamento de eventos climáticos extremos mostram que falhas de comunicação, gargalos institucionais e problemas de interoperabilidade podem comprometer respostas emergenciais. Sua eficácia depende de coordenação interinstitucional, comunicação integrada, clareza nos fluxos de decisão e preparação prévia. Sistemas de alerta, imagens de satélite, drones e modelos digitais são ferramentas fundamentais, mas só produzem resultados quando inseridos em redes de cooperação. Não há cidade inteligente onde a água não seja governada com equidade.
Além disso, uma cidade pode ser digital e ainda reproduzir desigualdades no acesso à água, sendo, portanto, pouco “smart”. A verdadeira inteligência urbana — conectada, eficiente e sustentável — exige integração entre técnica, planejamento e inclusão. Sistemas sofisticados de monitoramento precisam dialogar com a redução de vulnerabilidades que se concentram em territórios e grupos socialmente mais expostos.
São Paulo oferece um exemplo concreto dessa exigência de integração entre técnica, planejamento e inclusão. Nos territórios onde dimensões habitacionais, ambientais, sanitárias, de mobilidade e de segurança se entrelaçam, os recursos hídricos continuam a revelar desigualdades persistentes. A exposição ao risco e a fragilidade ambiental diferenciam profundamente esses territórios dos bairros consolidados. Assim, ainda hoje, a água permanece como elemento ativo na (re)produção da estrutura social.
Retomando o caso sul-africano, observa-se como a água pode sedimentar hierarquias históricas, enquanto o caso paulistano demonstra que ela continua estruturando desigualdades e vulnerabilidades urbanas. Essas constatações colocam em questão leituras do projeto das cidades inteligentes que supõem que a integração tecnológica possa operar de forma autossuficiente na produção de resiliência urbana.
Em última instância, a água foi, é e seguirá sendo condição material da cidadania. Onde flui de forma segura e equitativa, a cidade pode prosperar de maneira inclusiva; onde escasseia ou se distribui de forma desigual, suas fissuras tornam-se visíveis. Pensar a água é pensar a cidade — não apenas como espaço físico, mas como sistema complexo em que ambiente e sociedade são indissociáveis. A verdadeira inteligência urbana será aquela capaz de reconhecer que a água, mais do que recurso, é fundamento de equidade e sustentabilidade. Se a gestão hídrica permanece frágil ou desigual, não se trata de uma falha setorial, mas de um limite do projeto que se pretende inteligente.
¹A crise hídrica de 2018 na Cidade do Cabo, na África do Sul, foi provocada por uma severa seca nos três anos anteriores, que levou os reservatórios da cidade a níveis críticos. Diante da possibilidade do chamado “Day Zero” — quando o abastecimento público poderia ser interrompido — o governo impôs rígidas restrições de consumo. A crise foi evitada com a redução drástica do uso de água e o retorno das chuvas, mas evidenciou fragilidades no planejamento hídrico e profundas desigualdades socioespaciais no acesso aos recursos públicos essenciais e na capacidade de adaptação.
²NERY, Marcelo Batista; SOUZA, Altay Alves Lino de; ADORNO, Sergio. Os padrões urbano-demográficos da capital paulista. Estudos Avançados, São Paulo, v. 33, n. 97, p. 5–36, 2019. DOI: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3397.002.
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Artigo publicado originalmente no site Portal CSC: https://portal.connectedsmartcities.com.br/2026/03/06/entre-padroes-e-fluxos-o-limite-invisivel-das-cidades-inteligentes-passa-pela-governanca-da-agua/













