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Mobile Time – 10/03/2026
Por Isabel Butcher

 

Em sua agenda regulatória para 2026, a Abes sugeriu a criação do Ministério da Inteligência Artificial, Transformação Digital e Infraestrutura Digital. Para a Associação Brasileira das Empresas de Software é preciso endereçar o assunto “Tecnologia” de forma sistêmica não somente no Governo Federal, mas também nos governos estaduais e no Congresso Nacional. Para isso, a Abes se propôs a promover rodas de conversas com todos os candidatos à presidência da República e a governos estaduais onde há uma maior concentração de seus associados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. A proposta é que os candidatos coloquem em suas plataformas políticas sugestões concretas de transformação digital, com metas claras.

Não há pretensão de projetar um candidato a governo estadual somente com o discurso tecnológico, mas sugerir políticas voltadas ao tema será essencial.

“Aqui na Abes temos verticais de negócios nichadas, com empresas que oferecem soluções somente para cidades inteligentes ou para saúde, por exemplo. Podemos incutir na cabeça do gestor público a perspectiva da transformação digital como programa de governo. Talvez a gente consiga ter uma realidade muito melhor. Podemos enxergar um horizonte de mudança dessa maneira”, diz Marcelo Almeida, diretor de Relações Governamentais da Abes, em conversa exclusiva com Mobile Time.

Estratégia da Abes no Congresso

Marcelo Almeida, diretor de Relações Governamentais da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES). Crédito: divulgação

Apesar de o Congresso Nacional não ser o principal foco da associação neste momento, a ideia é estimular a candidatura de pessoas que já viveram o bom e o pior do empreendedorismo no setor de tecnologia e que tenham vontade de levar a causa para o âmbito político.

“Identificamos hoje no parlamento brasileiro que o tema tecnologia tem uma distância quando pensamos em questões mais minudentes. Um exemplo é o Redata. Associar a infraestrutura de tecnologia com inteligência artificial não é um bom caminho porque a infra tem uma quantidade muito maior de possibilidades e de ganhos para o país do que processamento de IA”, explica.

Almeida lembra que inserir o Redata no PL do marco legal de IA pelo Congresso acabou por atrapalhar o avanço do projeto de infraestrutura. “E todos que lidam com tecnologia – empresas de software, engenharia, importadores e demais empresas que oferecem tecnologia à população – querem o Redata. Essa estratégia [juntar os dois assuntos em um PL só] decorre de uma construção política, mas também de um desconhecimento do que verdadeiramente pode trazer bons frutos para o Brasil”.

Por conta disso, a Abes acredita que nesse momento de renovação política é importante encontrar pessoas com “discurso mais próximo da realidade regulada, da realidade vivenciada na economia e na produção tecnológica”, resume Almeida.

Pensando em atrair essas pessoas, a Abes promoverá rodas de conversas com candidatos para tentar inserir na plataforma política dessas pessoas o discurso da transformação tecnológica brasileira, que precisa ser revisitada “e que não dá para ser só uma promessa”, resume.

“Precisamos fazer letramento digital no Brasil e ter metas para isso, dar um número que seja para que se tenha compromisso e ter que correr atrás. Devemos analisar o passado para projetarmos o futuro”, diz.

Para isso, a Abes levará diversos KPIs na estratégia brasileira de transformação digital que não existem.

“Se tenho 386 infraestruturas de data centers, quantos quero ter daqui a quatro anos?”, questiona. “Temos a perspectiva de tentar influenciar no processo eleitoral para que a gente possa montar de forma substancial uma bancada da tecnologia no Congresso. Não é uma bancada da tecnologia que está mais preocupada em fazer selfie no meio do plenário e postar na rede. É uma turma que compreende a importância de se criar um diálogo institucional em matéria de tecnologia para a gente mudar de patamar. É um discurso sistêmico, com viés de posicionar o Brasil neste tabuleiro. Criar possibilidades”, explica.

Abes não pensa na criação de uma frente parlamentar da tecnologia, mas em ter políticos engajados na causa.

“Não precisa de frente parlamentar. Temos credencial e vamos aproveitar isso para dar o nosso recado. O fato é que sinto falta, como você tem na bancada da bala, os policiais, o pessoal do agro, que vivencia o problema do agro, precisamos de uma pessoa que percorreu uma jornada na tecnologia, conseguiu empreender e resolveu transformar sua jornada em uma pauta na política. Não identifico esse sujeito no Congresso Nacional atual. Tenho que tentar sinergias para colocar os sujeitos no tabuleiro. É o que temos na democracia”, afirma.

Críticas ao governo atual

O atual governo federal, segundo Almeida, faz esforços bem-sucedidos, porém pontuais. É o caso do avanço da digitalização do governo, com melhorias em sistemas como o da licitação de compras públicas ou o Ministério da Saúde, que avança na digitalização.

A proposta é que, ao criar uma estratégia nacional de transformação digital, com um ministério envolvido, haja uma centralização dos assuntos tecnológicos, perpassando todos os ministérios. Dessa forma, fica mais fácil dimensionar o impacto das políticas públicas de acordo com os setores, como educação, saúde. “E, lá dentro, criam-se estruturas para, por exemplo, otimização de mercado de dados, inteligência artificial, políticas para a população vulnerável com relação à acessibilidade, letramento digital e por aí vai”, resume.

“Isso tudo conversa com outras pautas, com outros ministérios. Quando eu falo de letramento, eu falo de MEC. Mas se você olhar a estrutura orgânica do MEC, a tecnologia não é transversal, mas está dentro de capacitação e treinamento de ensino superior. Então, o letramento tem que estar em tudo”, acredita Almeida, que vê a falta do olhar sistêmico no governo como um ponto fraco.

Por isso, se falhar o plano da criação do ministério, a Abes quer convencer os presidenciáveis de que a centralidade é essencial para que o assunto seja sistêmico.

“Por que eu não tenho letramento digital em toda a cadeia de educação brasileira? Por que o meu engenheiro de software está morando em Lisboa? Por que as melhores qualificações em Engenharia de Software ou Ciência da Computação na América Latina não estão no Brasil? É sobre isso. É criar um ambiente de transformação digital nativo”, diz Almeida.

“A ideia da centralidade da transformação é possibilitar o olhar sistêmico na construção de políticas públicas para os próximos quatro anos no Brasil. E estamos abertos ao diálogo, queremos ouvir o que os candidatos têm a dizer. Queremos fazer as reuniões com os candidatos a governador desses estados e com os presidenciáveis também”, complementa.

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