*Por Anderson Nascarella
O Carnaval é tradicionalmente associado à festa, alegria, à celebração e ao relaxamento das rotinas. No entanto, no contexto de um mundo cada vez mais digitalizado, esse período de distração coletiva revela uma contradição incômoda: enquanto pessoas e empresas reduzem o ritmo, o ambiente digital permanece em plena atividade, e com ele, os riscos cibernéticos. Em 2026, falar em “Carnaval conectado” é reconhecer que a lógica da festa convive com uma infraestrutura tecnológica que não desacelera, criando um cenário em que a diminuição da atenção humana se transforma, silenciosamente, em oportunidade para crimes digitais.
Essa preocupação não é abstrata nem exagerada. Relatórios recentes da consultoria Gartner indicam que 91% dos CIOs pretendem aumentar os investimentos em cibersegurança em 2025, o que evidencia uma percepção clara de que o risco digital deixou de ser episódico para se tornar estrutural. O dado mostra que líderes de TI compreendem que a proteção não é mais um complemento da operação, mas parte essencial da continuidade dos negócios. Ainda assim, há uma diferença entre reconhecer o risco em estratégia e administrá-lo na prática cotidiana, sobretudo em períodos marcados por redução de equipes, férias coletivas e menor vigilância operacional.
Momentos festivos, como o Carnaval, expõem uma fragilidade que vai além da tecnologia: a dependência do fator humano. A rotina menos rígida favorece o uso de redes públicas, o acesso remoto a sistemas corporativos a partir de dispositivos pessoais e a tomada de decisões rápidas em contextos informais. Essa combinação cria um terreno fértil para golpes baseados em engenharia social, exploração de credenciais e falhas de processo. Não se trata apenas de ataques sofisticados, mas da exploração sistemática de comportamentos previsíveis em ambientes de menor atenção e controle.
O impacto econômico desse fenômeno também ajuda a dimensionar a gravidade do problema. Estudos publicados em 2025 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam que o cibercrime deverá custar US$ 23 trilhões à economia global em 2027, um aumento de 175% em relação a 2022. Esse crescimento projeta o crime digital como uma das maiores ameaças econômicas transnacionais da próxima década, superando, em impacto financeiro, muitos setores produtivos tradicionais. A expansão desse custo não decorre apenas da sofisticação técnica dos ataques, mas da ampliação constante da superfície de exposição: mais sistemas conectados, mais dados circulando e mais interdependência entre infraestruturas críticas e redes digitais.
Quando esses dois movimentos se encontram, a escalada do custo global do cibercrime e a redução temporária da vigilância durante períodos festivos, forma-se um paradoxo relevante. A cultura da pausa, necessária do ponto de vista social e humano, não é acompanhada por uma pausa equivalente na atividade criminosa digital. Pelo contrário, a previsibilidade dos calendários se transforma em variável estratégica para agentes maliciosos, que exploram exatamente os momentos em que a atenção institucional diminui.
Refletir sobre o “Carnaval conectado” é, portanto, refletir sobre a ilusão de que riscos digitais seguem o mesmo ritmo da vida social. Eles não seguem. O que muda é a nossa postura diante deles. Se a segurança é tratada apenas como função técnica, ela enfraquece nos momentos em que as estruturas humanas se dispersam. Se é compreendida como cultura organizacional, integrada ao comportamento, aos processos e à gestão, ela tende a resistir melhor às oscilações do calendário.
A festa, por definição, é passageira. Já os efeitos de um ataque cibernético podem atravessar semanas, meses ou até anos. Em um cenário em que o cibercrime se projeta como um dos maiores custos globais da próxima década, a distração deixa de ser apenas um estado emocional e passa a ser uma variável de risco. O desafio contemporâneo não é eliminar os momentos de celebração, mas reconhecer que, no mundo hiperconectado, a atenção à segurança não pode entrar em recesso junto com o expediente. Porque, se há algo que os dados indicam com clareza, é que os riscos digitais não tiram férias, apenas esperam que alguém baixe a guarda.
*Anderson Nascarella é Business Sales Manager da Adistec Brasil
Notice: The opinion presented in this article is the responsibility of its author and not of ABES - Brazilian Association of Software Companies













