Mobile Time – 21/01/2026
Por Henrique Medeiros*

O acordo Mercosul-UE pode servir de alicerce para o crescimento e para a atração de investimentos em serviços digitais e de software no Brasil que hoje estão “descapitalizados”, segundo Rodolfo Fücher, vice-presidente do conselho da Abes (Associação Brasileira das Empresas de Software). Com isso, a participação desse segmento pode representar 2% do PIB nacional.
Fücher acredita que a partir do acordo e dos investimentos vindo da Europa, a convergência para 2% do PIB é factível, o que levaria a participação de softwares e serviços no mercado corporativo para US$ 43,4 bilhões. Segundo dados da IDC com Abes, atualmente, o segmento de software e serviços brasileiro representa 1,4% do PIB brasileiro, o equivalente a US$ 30,8 bilhões ou US$ 150 per capita, abaixo da média dos grandes países.
Para efeito de comparação, o estudo da Abes com o IDC, que avalia o uso de serviços e software em B2B nos dez principais países da zona do Euro (Alemanha, França, Itália, Espanha, Países Baixos, Suécia, Bélgica/Luxemburgo [agrupados], Dinamarca, Finlândia e Irlanda) e recortes de EUA e Reino Unido, demonstra que:
- Nos dez principais países da UE, o setor de software e serviço representa 2,2% do PIB e US$ 1.030 per capita;
- Se considerar os 27 países membros da UE, a relação dos serviços e softwares em PIB cai para 1,5% e US$ 890 per capita;
- No Reino Unido, o consumo per capita de softwares e serviços representa 13,3% do PIB e US$ 1.630 per capita;
- Nos EUA é 13,6% do PIB e US$ 2,9 mil per capita.
O representante da associação recorda que as empresas na América do Sul e, em especial no Brasil, são atraentes para os europeus aportarem, pois:
- O real está mais fraco que o euro e o dólar, o que deixa o investimento barato em empresas brasileiras;
- THE taxa Selic está alta (15%), o que dificulta acesso das empresas a capital de qualidade no sistema financeiro nacional;
- Permite aos europeus acessarem um mercado de early adopters e consumidores de tecnologia em potencial, algo demonstrado pelo fato de o Brasil ser o quinto maior mercado de usuários de Internet, um dos principais em uso de redes sociais, tempo de uso de smartphones e download de aplicativos;
- Ao mesmo tempo, os brasileiros podem alcançar mercados pouco explorados na Europa.
Entre os setores que Fücher acredita que podem se beneficiar para exportar serviços e software aos europeus estão o agronegócio e o envio de mão de obra técnica criativa (publicitários e designers, por exemplo). Em contrapartida, os europeus podem colaborar para o desenvolvimento de softwares, equipamentos e mão de obra qualificada para a indústria 4.0, como engenheiros e programadores. Mas o maior ganho pode ser em serviços e software em geral, pois o mercado global demanda mais administração e prestação de serviços.
“Quando você pega o número de empresas (em software e serviços) no Brasil, em 2004, 25% desenvolviam software, 19% faziam prestação de serviço, e 56% distribuíam produtos. Em 2024, que é o último número que temos junto com o IDC, 30% desenvolviam software no Brasil, serviço subiu para 37% e distribuição caiu para 33%. Então você percebe como o mercado realmente demandou muito mais empresas prestando serviços”, disse.
Como exemplo de movimentações financeiras que ocorrem da Europa para o Mercosul, mesmo antes do acordo, o presidente da Abes recorda do grupo italiano Almaviva que comprou recentemente Tivit e Magna Sistemas.
Mercosul-UE: Brasil precisa resolver problemas estruturantes
Contudo, Fücher reforçou que os desafios do acordo Mercosul-UE para serviços e TI não diferem dos problemas atuais para a América do Sul e do seu principal mercado econômico, o Brasil. O representante reforça que há “problemas estruturantes” a serem resolvidos, como complexidade regulatória e insegurança jurídica, mas principalmente a alta carga tributária e a falta de mão de obra qualificada.
“Quando o brasileiro importa um software, em média, 15% são recolhidos de imposto de renda. Ou seja, 15% diretamente adicionado ao custo do produto. Em serviços (leia-se SaaS) é recolhido 25%. Há países como Alemanha e França que têm compensação tributária. A questão é se o acordo vai envolver isso ou não (para os outros países europeus)”, questionou Fücher. “Se tiver uma redução/compensação na prestação de serviços, o Brasil poderá acessar mão de obra qualificada da Europa, por exemplo”, completou.
Neste cenário, o representante da Abes atenta que o papel de serviços digitais e TI dentro da reforma tributária (PLP 108/2024) e do marco regulatório de inteligência artificial (PL 2.338/2023) são vitais para definir o papel do Brasil e da América Latina nas próximas duas décadas no cenário mundial. Em sua visão, se a regulação de IA continuar “a mais dura do mundo” e se o ambiente tributário continuar encarecendo significativamente o custo operacional das empresas brasileiras, as vantagens competitivas e de acesso ao mercado europeu obtidas com o acordo serão nulas para os sul-americanos.
Imagem principal: Ilustração produzida por Mobile Time com IA.
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*Repórter do Mobile Time.













