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* By Alejandro Chocolat

 

Vivemos um momento em que a única certeza da indústria de bens de consumo é a incerteza. Entre crises de matérias-primas, mudanças abruptas na demanda, flutuações de mercado e escassez de mão de obra, depender de planilhas e de planejamento estático tornou-se um risco elevado. Não por acaso, cerca de 80% dos fabricantes do setor ainda utilizam métodos tradicionais, como gráficos de Gantt, mesmo diante de cadeias de suprimento cada vez mais complexas e portfólios mais dinâmicos. O resultado desse descompasso são excesso de estoques, atrasos na produção e oportunidades desperdiçadas.

Nesse contexto, a agilidade de produção deixa de ser luxo ou vantagem competitiva e passa a ser uma necessidade vital. A adoção de sistemas avançados de planejamento e programação (APS) permite planejar com dados em tempo real, simular cenários e reagir rapidamente a imprevistos — como atrasos em entregas, falhas em máquinas ou oscilações repentinas na demanda. Trata-se de migrar de um modelo rígido e reativo para um planejamento dinâmico, orientado por dados e baseado em capacidade produtiva.

Do reativo ao responsivo: o salto para a agilidade de produção

Esse “salto de paradigma”, de reativo para responsivo, está no centro do conceito de agilidade de produção. Com planejamento ágil, é possível reduzir estoques, evitar desperdícios, otimizar o uso de recursos, diminuir tempos de lead time e ajustar rapidamente a produção às necessidades do mercado e do consumidor.

Um dos pilares tecnológicos dessa abordagem é o uso do “virtual twin” (gêmeo virtual) — um modelo digital que representa não apenas o layout e os recursos da fábrica, mas também as regras, relações e restrições da operação. Com ele, é possível simular cenários, testar alternativas, avaliar impactos e otimizar a programação antes de qualquer mudança no mundo real.

Impactos concretos no dia a dia da indústria

Esse novo modelo de planejamento se traduz em ganhos diretos na gestão de estoques e validade dos produtos, com menos desperdício e capital parado, ao mesmo tempo em que melhora o uso dos recursos produtivos e a capacidade de alternar rapidamente entre variantes, mantendo produtividade e nível de serviço mesmo em ambientes de alta variabilidade.

Na prática, isso se traduz em ganhos diretos na gestão de estoques e validade dos produtos, com menos desperdício e capital parado, ao mesmo tempo em que melhora o uso dos recursos produtivos e a capacidade de alternar rapidamente entre variantes, mantendo produtividade e nível de serviço mesmo em ambientes de alta variabilidade.

Resultados mensuráveis, sem ruptura total de sistemas

Um equívoco comum é imaginar que a adoção dessas ferramentas exige uma reinvenção completa da operação. Na prática, muitas soluções modernas de APS são desenhadas para integrar-se aos sistemas já existentes, como ERP e MES. O objetivo é ganhar visibilidade e automatizar decisões, não substituir tudo.

Os resultados são expressivos. Em muitos casos, o retorno sobre o investimento ocorre em até 12 meses, com ganhos de até 70% na agilidade do planejamento, redução de 30% a 50% no tempo de programação e níveis de entrega no prazo entre 90% e 100%. São indicadores que mostram como a agilidade deixa de ser apenas conceitual e passa a gerar impacto real no negócio.

Esses ganhos vão muito além do curto prazo. Eles criam as bases para uma competitividade sustentável, sustentada por dados, controle operacional e maior capacidade de inovação. 

E no Brasil, como isso se aplica?

No Brasil, os desafios da indústria de bens de consumo são ainda mais agudos. A oscilação cambial, a instabilidade econômica, os gargalos logísticos e as variações regionais de demanda tornam o ambiente extremamente imprevisível. Nesse contexto, apostar em planejamento tradicional, fixo e baseado em planilhas significa permanecer vulnerável a falhas de produção e rupturas de oferta.

Para as empresas brasileiras, adotar uma abordagem de agilidade na produção representa não apenas eficiência, mas resiliência. Um sistema ágil e digital, capaz de reagir rapidamente a variações de custo, demanda ou disponibilidade de insumos, pode significar a diferença entre manter a competitividade ou perder espaço no mercado.

Além disso, a grande diversidade regional — tanto em comportamento de consumo quanto em logística — torna a flexibilidade ainda mais valiosa. Ela permite ajustar volumes à demanda local, reduzir desperdícios, otimizar estoques e atender consumidores de diferentes perfis e diferentes regiões, com mais eficiência.

Em suma, não basta produzir bem quando tudo está estável. A nova realidade impõe flexibilidade, dados em tempo real, integração e capacidade constante de adaptação. No Brasil de hoje, a agilidade de produção já não é apenas uma vantagem competitiva — ela se tornou, na prática, uma condição de sobrevivência para quem quer competir de verdade no mercado de bens de consumo.

*Alejandro Chocolat é Diretor Geral da Dassault Systèmes na América Latina

Notice: The opinion presented in this article is the responsibility of its author and not of ABES - Brazilian Association of Software Companies

 

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